Aventuras e desventuras de moças em permanente movimento migratório.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Isabel, Nápoles

“Adoro viajar!”
Quantas vezes é que já ouvimos um comentário deste género? Habitualmente é seguido de uma qualquer descrição dos sítios visitados e/ou uma lista exaustiva das intenções futuras de viagem. Uma massagem no ego, mas que é sempre um tema de conversa fixe. Viajar faz bem à cabeça, menos bem à carteira, mas cumpre na perfeição a sua função de quebrar a rotina. Até aqui estamos 100% de acordo. É quando a conversa começa a descambar da apreciação da paisagem ou do monumento X ou do restaurante Y para juízos mais profundos em relação à cultura, aos costumes, ao nível sócio-económico do local visitado, com voz de certezas absolutas de quem viu e testemunhou e está vivo pra contar, que me começam a dar as comichões!
Meus caros amigos, lá ver s’agente s’entende: para viajar basta meterem-se no comboio Lisboa-Cascais concretizando a deslocação do vosso corpo do ponto A ao ponto B e quem diz comboio, diz avião, bicicleta ou os pézinhos. Não é preciso grande ciência, apenas uns trocos e que a CP não faça greve. Mas para conhecer um sítio na verdadeira acepção da palavra, é preciso tempo!
Sentar no banquinho do jardim, apanhar sol na moleirinha e fazer uma selfie com o Iphone pode ser muito bom, e é, mas não dá para conhecer uma pinóia. Para conhecer é preciso observar o mesmo objecto do maior numero de ângulos possível. É preciso estar, viver o sítio, as suas rotinas, os seus pontos altos e os baixos, os dias de frio e os de calor, ir ao talho, à peixaria, repartição de finanças e ao dentista, ser surpreendido com uma coisa nova todos os dias da estadia.
Lamento, mas nenhuma viagem de 7 noites e 6 dias em pensão completa e transfer do aeroporto ao hotel vos dá essa merda. Tirem o cavalinho da chuva, bébés!
Podem até conhecer pessoas que vivam nos sítios para onde viajam, que vos acolhem em casa e partilham convosco a “vida local” mas não passará de uma experiência epidérmica. Os sítios são como as pessoas. Ninguém fica a conhecer ninguém, para além do que é exterior e óbvio ao olhar, em 5 minutos. Até podem enfiar-lhe a mão pela goela abaixo, mas vão continuar sem conhecer a pessoa e provavelmente irão apanhar um selo nas trombas.
Acham realmente que um atrasado qualquer que chega à terra que vos viu crescer e que fica lá 3 dias tem credenciais para dar uma opinião que vá para além das aparências e do óbvio. Não, pois não!? Então não puxem dos galões quando chegam das vossas viagens, porque o que vocês viram estava ali para ser visto.
Há razões profundas para que o comportamento de um povo seja de uma maneira que nos agrada ou não. Há razões que os viajantes desconhecem e que só quem está ou chegou para estar vai saber descortinar. Essas razões incluem acontecimentos históricos, sociais, económicos, artísticos, gastronómicos, enfim, a vida que explica tudo sobre todos.
Eu já viajei muito, bastante até, mas conhecer mesmo, tenho a sorte de conhecer 4 sítios: Cascais, Lyon, Macau e Nápoles. Todos os restantes lugares por onde viajei foram apenas passagens.
Vão lá viajar, passear, tragam fotos e histórias porreiras para contar, mas não m’irritem pá!


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