“Adoro
viajar!”
Quantas
vezes é que já ouvimos um comentário deste género? Habitualmente é seguido de
uma qualquer descrição dos sítios visitados e/ou uma lista exaustiva das
intenções futuras de viagem. Uma massagem no ego, mas que é sempre um tema de
conversa fixe. Viajar faz bem à cabeça, menos bem à carteira, mas cumpre na
perfeição a sua função de quebrar a rotina. Até aqui estamos 100% de acordo. É
quando a conversa começa a descambar da apreciação da paisagem ou do monumento
X ou do restaurante Y para juízos mais profundos em relação à cultura, aos costumes,
ao nível sócio-económico do local visitado, com voz de certezas absolutas de
quem viu e testemunhou e está vivo pra contar, que me começam a dar as
comichões!
Meus
caros amigos, lá ver s’agente s’entende: para viajar basta meterem-se no
comboio Lisboa-Cascais concretizando a deslocação do vosso corpo do ponto A ao
ponto B e quem diz comboio, diz avião, bicicleta ou os pézinhos. Não é preciso
grande ciência, apenas uns trocos e que a CP não faça greve. Mas
para conhecer um sítio na verdadeira acepção da palavra, é preciso tempo!
Sentar
no banquinho do jardim, apanhar sol na moleirinha e fazer uma selfie com o
Iphone pode ser muito bom, e é, mas não dá para conhecer uma pinóia. Para
conhecer é preciso observar o mesmo objecto do maior numero de ângulos
possível. É preciso estar, viver o sítio, as suas rotinas, os seus pontos altos
e os baixos, os dias de frio e os de calor, ir ao talho, à peixaria, repartição
de finanças e ao dentista, ser surpreendido com uma coisa nova todos os dias da
estadia.
Lamento,
mas nenhuma viagem de 7 noites e 6 dias em pensão completa e transfer do
aeroporto ao hotel vos dá essa merda. Tirem o cavalinho da chuva, bébés!
Podem
até conhecer pessoas que vivam nos sítios para onde viajam, que vos acolhem em
casa e partilham convosco a “vida local” mas não passará de uma experiência
epidérmica. Os sítios são como as pessoas. Ninguém fica a conhecer ninguém,
para além do que é exterior e óbvio ao olhar, em 5 minutos. Até podem
enfiar-lhe a mão pela goela abaixo, mas vão continuar sem conhecer a pessoa e
provavelmente irão apanhar um selo nas trombas.
Acham
realmente que um atrasado qualquer que chega à terra que vos viu crescer e que fica
lá 3 dias tem credenciais para dar uma opinião que vá para além das aparências
e do óbvio. Não, pois não!? Então não puxem dos galões quando chegam das vossas
viagens, porque o que vocês viram estava ali para ser visto.
Há
razões profundas para que o comportamento de um povo seja de uma maneira que
nos agrada ou não. Há razões que os viajantes desconhecem e que só quem está ou
chegou para estar vai saber descortinar. Essas razões incluem acontecimentos
históricos, sociais, económicos, artísticos, gastronómicos, enfim, a vida que
explica tudo sobre todos.
Eu
já viajei muito, bastante até, mas conhecer mesmo, tenho a sorte de conhecer 4
sítios: Cascais, Lyon, Macau e Nápoles. Todos os restantes lugares por onde
viajei foram apenas passagens.
Vão
lá viajar, passear, tragam fotos e histórias porreiras para contar, mas não
m’irritem pá!

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